O grande conflito das vacinas

O que preocupa, assusta e entristece é a possibilidade de que teremos uma enxurrada de golpes e falcatruas envolvemdo as vacinas

O centenário jornal Cruzeiro do Sul, da cidade de Sorocaba em São Paulo, o qual tenho imenso orgulho de dizer que já pertenceu a nossa família e que teve como fundador o meu avô paterno, Orlando da Silva Freitas, traz esta semana um editorial de primeira linha na análise da novela das vacinas anti Covid no Brasil.

O texto destaca que Ano Novo vem aí e com ele a esperança de que as vacinas resolvam, ou ao menos reduzam, significativamente, os danos da pandemia do novo coronavírus em todo o mundo. Se quando o problema surgiu aqui no Brasil, em março deste ano, alguém dissesse que ainda estaríamos passando por um momento difícil no réveillon, pouca gente acreditaria.

Enfim, há luz no fim do túnel, mas ainda falta um bom trecho dentro dele. E como nada é fácil neste nosso Brasil, o que era para ser algo positivo já começa a dar dor de cabeça e a expor algumas das piores facetas dos seres humanos.

Nesta semana, viralizou uma imagem e uma história de suposta venda de uma vacina nas ruas de Madureira, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Segundo a postagem, a tal “vacina” estava sendo vendida a R$ 50 e ainda havia a possibilidade de pagar mais R$ 10 para receber a aplicação da mesma na hora.

Evidentemente um engodo tremendo, devidamente desmascarado pelo jornalista Marco Faustino no site de verificação de fatos ‘E-farsas’. Faustino decidiu pesquisar essa história e descobriu que o conteúdo é falso, claro.

Ele explica e mostra que a imagem que viralizou foi tirada em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, durante um evento de uma empresa que oferece programas de treinamento esportivo.

Para comprovar, incluiu, em suas considerações, o vídeo postado em 14 de dezembro pela organização. Vários presentes tiraram fotos ou fizeram vídeos com a caixa da vacina. A mesma que aparece na ‘vacina de Madureira’.

Mas esse episódio viralizou de modo tão forte que foi suficiente para a Polícia e a Anvisa se mobilizarem para investigar o suposto esquema. O caso mostra não apenas o poder danoso das Fake News como alerta para o que está por vir nesse assunto sobre vacinas contra o Covid.

É muitíssimo provável que no ano que vem teremos várias situações como essa no Brasil. Mas o que mais assusta e nos entristece é a possibilidade — ou melhor, a quase certeza — de que teremos uma enxurrada de golpes, falcatruas e falsidades envolvendo as imunizações.

Não será surpresa alguma termos vacinas falsas, mercado paralelo e as mais variadas tramoias envolvendo esse tema. Portanto, será necessário que todos fiquem atentos para buscar e se orientar pelas informações corretas, já que neste caso não estamos falando apenas de memes e brincadeiras e, sim, de algo envolvendo a saúde e a vida das pessoas.

Quando isso acontecer, a imprensa séria precisa estar devidamente preparada para checar, mostrar e explicar o que realmente estiver ocorrendo. Uma outra situação, essa absolutamente verdadeira e igualmente preocupante, foi o pedido feito à Fiocruz pelo STF (Supremo Tribunal Federal), a mais alta Corte do País, para imunizar 7 mil servidores do tribunal e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A insólita justificativa é que “a medida seria uma forma de contribuir com o País nesse momento tão crítico da nossa história”. Ou seja, não satisfeitos com os inúmeros auxílios residência, doença, saúde etc, o Judiciário agora também quer uma espécie de ‘auxílio vacina’? Ou quer furar a fila da imunização? É por essas e outras que o Judiciário sofre reclamações e cobranças daqueles que alegam excesso de facilidades a seus membros.

Por mais que a explicação do tribunal seja apenas para fazer uma reserva de vacinas e não para ter prioridade, isso não cola. Os membros o Judiciário — e também dos outros po­deres — precisam entender que devem ser tratados iguais ao restante da população! É óbvio que muitos deles estarão entre os primeiros da fila por outros motivos como idade, comorbidade, histórico de saúde etc.

Mas somente a toga não justifica preferência. Pelo contrário, assim como os políticos e funcionários públicos, o Poder Judiciário também precisa dar o exemplo.

A Fiocruz, com absoluta razão, rejeitou o bizarro pedido e afirmou que não cabe à empresa atender a qualquer demanda específica relativa à vacina e que já havia negado solicitação similar feita pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O simples pedido foi uma tremenda bola fora dos tribunais. No fim das contas, o que restou foi mais um exemplo de como nosso Judiciário, em muitas ocasiões, se comporta de modo equivocado, julgando-se estar acima do bem e do mal.

Por fim, se somos tão críticos aos exageros de algumas cotas, como podemos aceitar essa espécie de ‘cota do Judiciário’ em relação à vacina? Nessa, o STF pisou feio na bola.

Por fim, ainda neste tema de vacinação, a constatação de que o Brasil precisa se mexer se não quiser ficar no final dessa fila. Nos últimos dias, países como México e Chile já vacinaram seus primeiros pacientes.

A Argentina também já recebeu lotes da vacina russa Sputnik e vai iniciar a vacinação na semana que vem.

Sabemos que pela população gigantesca, aqui será mais complicado. Mas temos de nos mexer para não ficarmos para trás.

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